18 maio 2009

Oficina de escrita de português: Escreva um texto no qual descreve as sensações que sentiria se fosse um dos personagens da pintura (150-200 palavras)


Abro os olhos.
Não sei quem sou, não sei onde estou ou porquê...não sei quem está ao meu lado.
O céu azul cobre-nos, e por toda a areia estranhos reflexos doirados tendem a ofuscar-me a alma, como se um enorme tesouro se estendesse à minha frente.
Entre o céu e a terra está uma rosa, suspensa no ar. Porque estará ela suspensa no ar? Quem sabe... talvez se tenha fartado da sua pequenez terrena, talvez nos esteja agora a mostrar o quão pequenos somos nós. E eu olho-a, desprovido de memória, sem medo. Não há razões para ter medo, nada me acontecerá. Não sou eu com certeza a personagem principal, sou pequeno demais ! Sou como um minúsculo figurante num quadro surrealista, e enquanto críticos de arte se esforçam por encontrar um significado metafísico para esta flor que voa, eu limito-me a observá-la. Frente a frente. Esquecido por todos. Não poderei jamais descrever a sensação, precisamente por ser algo que nunca ninguém sentiu. Ninguém poderá perceber porque voa ela. Talvez estejamos todos enganados, e não haja nenhuma razão. Talvez voe apenas porque voa, tal como algumas estão na terra.
Sou minúsculo.
A sombra da rosa cobre-me...e começo a ter frio...

17 maio 2009

Oficina de escrita de português: Escreva um texto subordinado ao tema: O poema cresce...(80-100 palavras)

O poema cresce se eu quiser.
O poema é meu, e ninguém manda nele.
Rotular um poema, seja de que forma for, ainda que seja para dizer que ele cresce, é errado! Um poema é a coisa mais anarquista que existe. Pode variar desde os muito estudados decassílabos de Camões até ao verso solitário de João Miguel Fernandes Jorge. Um poema pode ser uma palavra e não perde a beleza por isso. Tal como uma criança pequena é bela. Talvez seja por forçarmos as crianças a crescer que elas ficam más pessoas. Talvez algumas crianças devessem crescer porque querem e outras devessem permanecer pequenas eternamente, tal como os poemas.

16 maio 2009

La bohème


Há uns dias, na minha escola, realizámos uma peça de teatro, em honra da semana da língua das românicas.
A peça de teatro passava-se no inicio do séc. XX, durante a revolução boémia francesa. E foi escrita por mim. Pouca audiência, poucos aplausos, é verdade, mas não há nada de mais gratificante para alguém que gosta de escrever, como ver uma peça sua ser realizada por pessoas que se esforçaram realmente para a recriar e representar.
A peça gira em volta de um pintor, sem inspiração, que a reencontra numa fotografia de uma mulher indiana, e todas as considerações tecidas em volta da inspiração que a fotografia causa, o amor e a boémia, por parte desse pintor, de dois poetas seus amigos, e de duas prostitutas habituais.
Não foi uma obra prima, e os cenários não foram os melhores, mas toda a elaboração, ensaios, treinos foram realmente divertidos. E a forma como um texto que escrevemos ganha vida, é absolutamente inacreditável. Olhar para as pessoas, e perceber que são as mesmas que inventaste, que por momentos estás dentro de todas, que estão ali os personagens que criaste, que inventaste, que controlas, mesmo à tua frente, palpáveis e visíveis, sentimo-nos gratificados com o nosso trabalho, e não há nada como isso.

10 maio 2009

Poema

Podia raptar-te
Aprisionar-te num castelo
Fazer-te minha, literalmente.
Assinar os papeis da tua compra
podia magoar-te
ou violar-te
Podia amar-te
mas em vez disso
fico para aqui a escrever...

14 abril 2009

O que aconteceu ao poema?

O poema afogou-se porque o poeta não sabia escrever e por muito que o cantasse, as nuvens levaram-no para o mar e ele afogou-se, e lá está agora, sem ar, palavras antes cheias de valor, apenas cheias de água, e ninguém. Ninguém quer saber.

11 abril 2009

O camponês

Havia um camponês
que todos os dias trabalhava
trabalhava
trabalhava.
Tinha uma pá e uma enchada,
e mãos suadas,
e uma cara mirrada,
mirrada como uma flor velha
da qual ninguem gosta.


E todas as manhãs ia para o campo,
e os seus patrões davam-lhe a pá,
porque nem a pá ele podia ter dele
e ele trabalhava, e trabalhava.
Plantava trigo, e batatas,
mas nunca mais as via, porque iam para os seus patrões
e toda a gente do mundo comia o que ele semeava,
toda a gente.
Menos ele.

Ele vivia triste e amargurado
mas não conhecia vida melhor.
Ninguém lhe dava vida melhor, ninguém.

Um dia, enquanto escavava, olhou incrédulo para o chão,
e a sua alma congelou,
do chão escorria sangue e em vez de trigo, espinhas mortas consumiam as vivas,
tal como o padre um dia disse que Moisés sonhou, ou talvez fosse José.
os montes, tornaram-se em altos alternados com sulcos,
tal e qual umas costelas muito magras.
E o camponês descobriu, que a terra que escavava
não era nada
se não ele próprio.

02 abril 2009

Fim do mundo.

E, nesse dia o céu começou a cair, e as árvores, e pedras que vinham do espaço, mas, os humanos cá em baixo não gritaram, esperaram honrados o fim merecido.